Terça-feira, 13 de Outubro de 2009

"Gradiva"

Aproveito o ciclo de conferências na Fundação Gulbenkian, para reflectir e criticar um aspecto da nossa sociedade que talvez poucas pessoas fora do meio académico note:



Há três tipos de pessoas que vão a este tipo de palestras. Os amigos do orador, que vão por amizade e respeito; A "raça" dos "humanistas" que nada percebem do assunto, que o elaboram com uma compreensão superficial e facilitista e acham intelectual frequentar este tipo de coisas; Os mais novos que gostam de divulgação cientifica, mas que nunca estudaram física ou matemática.
É principalmente nestes últimos que estas palestras têm mais impacto. Eu considero-as perigosas. Na verdade, considero a má divulgação cientifica extremamente periogosa. E passo a explicar porquê. Física e Matemática são ciências fundamentadas na argumentação lógica. Quer-se sempre que o porquê das coisas seja justificado com a fundamentação e manipulação dos outros porquês já explicados e fundamentados anteriormente. As pessoas não acreditam em buracos negros ou em neutrinos porquê os vêem. Acreditam neles porque resultam de consequências da manipulação do formalismo e da linguagem usada pela física, que em particular descreve bem outros fenómenos conhecidos.
Estas palestras não mostram isso. Alias, escondem isso, por ser díficil e porque assusta as pessoas. Não concordo com essa política e na verdade nunca concordei. Acho que se deve ser o mais honesto possível.


Para dar um exemplo das consequências deste facilitismo, todos os anos chegam ao IST algumas dezenas de alunos que entram no curso de física. Muitos deles vêem com essa visão "gradiva": As coisas são muito bonitas, "buracos negros e tal, mas ah...a matemática é lixada...". Muitos deles encravam nas primeiras cadeiras de análise, e de física básica, como electromagnetismo e muitos acabam por desistir do curso. A física não é cor-de-rosa e por isso não a vendam como tal. Eu sei que física não é matemática e matemática não é fisica.Já discuti mais vezes sobre isso do que fiz chichi nas calças. Mas as duas coisas não funcionam uma sem a outra e a capacidade de racicionio abstracto e de estabelecer relações causais é fulcral em ambas.

Vivemos num mundo em que os resultados são mais importantes que os métodos e as causas. Em que as pessoas querem tudo feito de um dia para o outro. Em física e matemática as coisas não são assim. Acho que uma boa palestra de física ou de matemática é precisamenta aquela que começa por explicar isso. Que dê preferência à metodologia e use o fascinio dos resultados como motivação, em vez de apelar ao espectáculo.


Há que motivar as pessoas para as dificuldades.

5 comentários:

  1. O problema para mim surge numa outra perspectiva. Tu queres divulgar aquilo em que se trabalha na Física e aliciar mais pessoas a juntarem-se a este ramo da Ciência. Mas só para tentar explicar a alguém em que é que se trabalha é necessário essa pessoa tirar um curso de Ciências e Matemáticas Gerais.

    Como resolver o problema?

    Aproveita-se exactamente o facto de ninguém ir compreender o que se está a dizer para abusar dos limites lógicos da ideia e apresentá-la como querias que as ideias fossem. Verdades absolutas que definem a natureza...

    Para mim o que me enerva é desonestidade intelectual vinda de alguém que na sua actividade profissional devia ter como principal preocupação ser intelectualmente honesto e correcto!!

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  2. "As pessoas não acreditam em buracos negros ou em neutrinos porquê os vêem. Acreditam neles porque resultam de consequências da manipulação do formalismo e da linguagem usada pela física, que em particular descreve bem outros fenómenos conhecidos."

    Quem escreve uma coisa destas é natural que acabe por se dedicar à teoria das categorias.

    "A física não é cor-de-rosa e por isso não a vendam como tal."

    Mas também não é Microprocessadores...

    Marco, tu tens uma má experiência com a física, e nem sabes como eu o lamento. Mas as coisas também não são assim tão negras! Mesmo assim concordo contigo em grande parte, nomeadamente a quantidade de pessoas que chegam à LEFT (que se foda o MEFT - LEFT sempre!) a julgar que aquilo é tudo como os livros da Gradiva. Mas isso... é a vida!

    Abraços positivistas, e boa sorte com o blogue. Vou passar por aqui.

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  3. Boas. Epá.. agora sinto-me ofendido.. Se calhar devia ter dito assim:

    "As pessoas não acreditam em buracos negros ou em neutrinos porquê os viram. Em ultima instancia a sua descoberta resultou de consequências da manipulação do formalismo e da linguagem usada pela física já conhecida, que em particular descrevia bem outros fenómenos conhecidos."

    não concordas?

    Não percebi o comentário sobre microprocessadores. Quando disse que a física não era cor-de-rosa, tencionava dar a entender que não é uma coisa fácil nem imediata. Para a perceber é necessário ter calma e que não podemos ter tudo com um estalar de dedos. Essa é uma dificuldade que nós compreendemos mas que a pessoa sem formação em física ou matemática não compreende.

    A sério. Não és já o primeiro a dizer-me que tenho uma má experiência com física. Eu não vejo porquê. Não acho que tenha. Pelo contrário. Gosto bastante de física. A minha "mudança" para assuntos ditos "de matemática" nunca foi para fugir à física. Pelo contrário. Foi para enfrentá-la na perspectiva que me parece a mais correcta. Quer a física, quer a matemática são ambas a mesma coisa: Concepção de ideias para explicar coisas. O meu problema era o caminho que os físicos em geral tomam. Quando vejo artigos de física, vejo muito poucas ideias fisicas e muito formalismo matemático. Ao mesmo tempo vejo os físicos a repudiar esse mesmo formalismo- porque (dizem eles) é matemática, quando na verdade não é matemática porque matemática são as ideias por detrás desse formalismo. Ou seja, o que se faz em geral não é física propriamente dita, nem é matemática propriamente dita. É uma coisa intermédia que não consigo perceber o que é. Nem nunca percebi. Não falo em perceber o formalismo, porque esse é fácil e mecânico. Falo em perceber na essência as coisas que estamos a abordar.

    Deixo a questão: Quantas pessoas é que tu conheces que já tenham parado a vida para pensar no principio da incerteza? Quantas físicos são os físicos que tu conheces que reflectem nas coisas em vez de andarem para a frente com o formalismo? Não digo que são todos porque obviamente não são, mas deves concordar comigo que a muitos isso passa ao lado.

    É esse o perigo na física - O formalismo é muito poderoso e fácil de trabalhar. Com isso, tornar-se fácil usá-lo sem saber para onde estamos a ir.

    Categorias é giro. Algebra é giro. É uma espécie de arquitectura misturada com engenharia. É uma espécie de esqueleto das teorias.

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  4. LOl..enganei-me.. deveria ser assim:

    "As pessoas não começaram a acreditar em buracos negros ou em neutrinos porquê os viram. Em ultima instancia a sua descoberta resultou de consequências da manipulação do formalismo da linguagem e das ideias usadas pela física já conhecida, que em particular descrevia bem outros fenómenos conhecidos."

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  5. "Eu sei que física não é matemática e matemática não é fisica.Já discuti mais vezes sobre isso do que fiz chichi nas calças"

    Normalmente, a situação comparativa que as pessoas usam costuma ser algo rotineiro, por forma a dar conta do quanto a outra coisa (à qual esta está a ser comparada) é demasiado frequente.

    Daí, pergunto: Fazes chichi nas calças assim tantas vezes?

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